21 janeiro 2010

a escolha D'ela # 2 (provocações)

ela parou em frente ao prédio e olhou para cima. protegia os olhos do sol e tentava olhar aquela varanda, mas estava difícil. onde ele estaria. já fazia tempo que não aprecia, depois do último encontro que tiveram ele havia sumido. será que alguém havia dado um fim no cruel assassino, no superior juiz que julgava a vida das pessoas pelas suas próprias leis. ela não conseguia aceitar o fato dele estar morto. ela sabia que ele não estava. mas também não conseguia explicar para si mesmo aquele sumiço, pois sabia que ele queria acabar com ela a qualquer custo. e ficou parada em frente ao prédio, do outro lado da rua. estava calor, e sua garganta secava a cada trago no cigarro, mas não conseguia se desprender dali tinha que ver ao menos uma sombra naquela varanda, mesmo que fosse por trás da cortina. pensou em gritar ao máximo de suas forças para chamar atenção, quem sabe ele não sairia pra ver o que estava acontecendo. pensou melhor e achou que não era uma coisa muito normal. começou a ficar com raiva, será que ele havia desistido dela. será que ele havia desistido de enfrentá-la. era mesmo um covarde. nos fones de ouvido tocava uma música apressada que começou a irritá-la. tirou os fones e o barulho da rua invadiu seus ouvidos como uma multidão faminta invade um galpão de distribuição gratuita de comida. ela passou a prestar atenção aos sons, um a um, carros, pessoas, o bater de asas das pombas, o vento nas folhas das arvores, um avião que sobrevoava, crianças brincando do outro lado, um velho que cantarolava uma antiga moda de viola. enquanto ouvia os sons da rua olhava fixo naquela sacada. a cadeira ainda estava lá. ele estava lá. ela quase podia sentir. decidiu que iria esperar mais. um vendedor de sorvetes ia passando. comprou um picolé. ascendeu outro cigarro. colocou de volta os fones. tocava um blues agora. acalmou-se. não havia mais raiva. deu uma mordida no sorvete cor de uva. e sorriu. ele deve estar preparando algo muito ruim para mim ela pensou. outro trago. outra mordida. e foi para casa.

Um comentário:

Jaya disse...

Fiquei tensa pra caramba. Ela, com todos os pensamentos turbulentos, é de uma coragem desleixada. Vai atrás, sabe? Quer enxergar, acreditar. Nesse ponto vi como necessidade. Imaginar, sozinha, por vezes aumenta o sentido daquilo que realmente é.

Acho mesmo é que ela gosta assim. Da euforia perigosa que quer imaginar no depois.

Não sei, não sei.

Beeeeeeeeeeeeeeijo, P.!