18 setembro 2010

#ficções da vida real – diálogos [1]

“Ouço aquele som/Lembro de você/Como acabou/Mas não tem nada não/Só guardo o que foi bom/No meu coração/O amor é como o sol/Sabe como renascer”
leve com você – natiruts

- Eu ainda me lembro do dia em que você disse “eu te amo”. As suas palavras entraram em mim como um oxigênio salva vidas. Foi como uma dessas surpresas que a gente deseja, mas que não espera ganhar.
- Mas eu te amei. Muito.
- Eu sei. Aquele dia eu soube. O sorriso que surgiu em mim não tinha mais dúvidas, mas ele também achou que seria para sempre.
- As coisas não duram para sempre. As pessoas não duram para sempre. Nada é eterno.
- Algumas coisas são. Não na forma prática, eu sei. Mas são. Como o que há de você em mim. É eterno, eu sempre soube disso. Eu te amei no momento em que te vi sem saber que já era amor. É um tanto clichê isso não?! Você deve estar pensando que sou uma boba. E depois de tanto tempo ainda falando isso pra você. Mas eu ainda te amo. Sempre vou amar.
- Eu não acho que você seja boba. Mas acho que você deveria amar outra pessoa. Eu já estou em outra. Nunca esqueci você, nem poderia, mas já não sinto aquele amor por você.
- Eu sei. Mas nem por isso posso deixar de amar você. Está em mim, faz parte da minha composição. Se eu tirar isso de mim, me perco. Como me perdi quando você foi embora.
- Do que você está falando?
- Eu tinha plena certeza do que queria com você. Eu podia ver meu futuro ao seu lado, nossos filhos, nossa casa, nossa vida feita por nós, construída em detalhes e felicidades. Quando você se foi todo esse plano se desfez e eu fiquei no vazio. Olhava para os lados e tentava ver por onde ir. Eu chamava, o silêncio ecoava. Eu não sabia o que fazer e me perdi. Eu tentei buscar algo que me fizesse sentir de novo, eu queria de todas as formas substituir você e ao mesmo tempo ter de volta todas as sensações que você me causava. Eu tentei novas formas de amor. Eu tentei afogar o amor. Eu pensei até em matar o amor.
Eu não conseguia encontrar ninguém para amar. Então eu concluí que o único amor que eu tinha em mim eu dei a você. Todo. Tudo. Não havia sobrado nada. Só a dor. Eu ainda te amava e esse amor doía.
Então eu cheguei à outra conclusão: o amor dói. Se dói, logo, não é bom. E eu decidi que não seria mais seguro amar.
Eu passei a seguir com descuido, sem me apegar a nada, atropelando tudo que poderia virar amor. Eu me sentia magoada, e magoei para me vingar.
- Mas porque você fez isso?
- Porque você levou toda a alegria que eu tinha quando disse que o amor em você, para mim, havia acabado. E se eu não poderia manter o amor em você, não poderia manter em mais nada. Eu me desfiz do amor por muito tempo. E esqueci como era amar. Fiz questão disso. E o tempo passou. Só você é que não saiu de mim. Mas mesmo assim eu aprendi a conviver com “você-ausente” de mim e fiz dos meus dias momentos automáticos, às vezes agradáveis, outras vezes apenas uma questão de necessidade física. Eu havia prometido a mim mesma que não deveria mais amar, porque não tinha amor.
- Eu não fazia idéia...
- Não se culpe. Eu já fiz isso por nós dois. É sério. E me culpei mais do que a você, embora não seja possível, de fato, achar um culpado. Porque eu deveria culpar você? Por me deixar? Por não me amar? Por me fazer te amar?
E a mim, por que deveria culpar? Por não conseguir esquecer?
Eu passei muito tempo tentando me convencer a esquecer. Tentando achar explicação, tentando enlouquecer para justificar. Eu não enlouqueci, não justifiquei, não expliquei. Nunca encontrei sequer motivos. Eu ainda ouço as músicas que você gosta. Ouço pra lembrar, embora não precise. Eu sempre me lembro de você com carinho, com amor, com a alegria desmistificada do primeiro amor. Porque eu te amei, te dei amor, muito amor. Todo o amor que eu achava que não poderia dar a mais ninguém. E num dia desses pensando nisso eu pude perceber que ainda há amor em mim e eu quero amar de novo.
Eu não vou entregar, é claro, de qualquer forma. Não para qualquer um, não com descuido. Eu procuro alguém para amar, mas eu quero alguém que seja digno de receber meu amor. Alguém que faça dele o maior amor do mundo de novo. Porque eu ainda tenho amor em mim, eu sempre terei amor em mim. Você, sem querer, me fez ver que o amor não deve doer. Ele tem que crescer, florescer e se doar. O amor não é o sofrimento, é o bálsamo.

2 comentários:

Amanda Bia disse...

impressionante como o que ela sentiu e sente é familiar em mim.
eu tenho alguém que amei demais. e que eu ainda amo e sempre vou amar. a gente não vai mais ficar junto, nunca mais. mas eu nunca vou deixar de amá-lo. incrível!
beijo.

Carlos Howes disse...

Uma nova modalidade por aqui?

E da mesma forma interessante. È sempre tão complexo falar de amor, e você faz isso de uma forma identificável para muitos. Acho que muitos sentimentos se vão, mas as lembranças e algumas consequências do que vivemos, essas sim ficam conosco, de um jeito positivo ou negativo. São parte de nós.

Admito que andei sumido sim, anda um pouco difícil, mas tento evitar. rs.