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27 março 2016

calor...

And now I'm dreaming of you/ Want you, yes I do/ Bet you never knew it/ Think you'd suit me fine/ Want you all the time
(Dreaming Of You - Cigarettes After Sex)


ela usava um vestido branco, desses soltos e de pano fresco, mas que marcam o corpo de um jeito que quase é possível saber o que te espera por baixo dele. fazia muito calor. ela suava e a pele grudando um cheiro doce brilhava na luz rala de sol que entrava pela cortina. seus olhos eram lânguidos e sonolentos. sentou nas minhas pernas, as pernas dela, abertas. um beijo de cigarro e suco de groselha, os lábios quentes. baixei as alças do vestido, os seios firmes, pequenos, os bicos rijos. fazia muito calor e ela quente, molhada, exalava um cheiro doce. eu me perdi em algum momento que não lembro bem e despertei quando ela sussurrou no meu ouvido "pronto. estou satisfeita". levantou-se. o vestido grudado no suor que deixei nela e a pele brilhando espalhava um aroma... respirei fundo. ela sorriu um meio sorriso de malícia. fazia muito calor, eu suava. ascendeu um cigarro, um gole de suco de groselha gelado, um beijo desleixado, silencio. eu suava. eu sorria. o sol entrava pela cortina e fazia muito calor...

22 novembro 2011

sempre

deram as mãos. passaram a caminhar juntos, olhando para frente. ouviam apenas o estalar dos sapatos nas folhas secas. o outono acabara e a primavera dava as caras no tempo, mas ainda havia muitas folhas no chão – com o tempo elas sumiriam por conta própria, esfacelando-se no vento.

“o que você vai fazer agora?” ele perguntou.

“ainda não sei bem. talvez eu me mude. estava pensando na bahia, uma daquelas cidades á beira mar. viver da pesca ou do artesanato.”

“você vai ter paciência?”

“a paciência foi o que mais exercitei neste ano, embora eu a tenha perdido muitas vezes, mas acho que posso coloca-la em prática para viver uma nova vida.”

“ainda vai continuar escrevendo?”

“eternamente.”

“vou ler sempre. prometo.”

“está bem.”

soltaram as mãos devagar, deixando que os dedos se separassem lentos uns dos outros escorrendo para a distância. sabiam que havia chegado ao fim. não o amor, mas a união.

ela continuou andando. ele ficou parado olhando para os cabelos dela se bagunçando no vento fraco, ficando longe, devagar, á passos lentos. ela não olhou para trás. estava decidida. não guardava mais raiva, nem mágoas. queria apenas mudar de ares agora, ver algo realmente novo. não estava disposta a se arriscar, apenas a fazer algo diferente, no entanto, confortável.

ele voltou-se para o lado oposto pondo-se a caminhar. não chorava mais, sentia apenas saudade. não era forte ainda, mas seria...

29 agosto 2011

(retiscências) ...

há tanto tempo que não venho por essas bandas que esqueceram - se de mim... até eu mesmo me esqueci.

não sei mais como se juntam palavras que formam algo bonito. ando preguiçoso e falo de mim como se fosse um homem... cansei de ser mulher, pelo menos na literatura. algumas palavras combinam mais com o masculino.

parece pessimista, mas por hora enjoei da vida, e guardo as perspectivas no fundo da gaveta do escritório para usar quando achar mais conveniente.

meu cabelo cresceu, parei de roer as unhas e comprei um nike shox prata dividido em 10x sem juros no cartão do meu pai.

10 novembro 2010

nalgum lugar

“não sei dizer o que há em ti que fecha e abre/ só uma parte de mim compreende/ que a voz dos teus olhos/ é mais profunda que todas as rosas”
(zeca baleiro – nalgum lugar)


era uma dessas manhãs em que o sol se senta preguiçoso nos quintais e as roupas no varal fazem sombras mal criadas. no fogão a água do café borbulhava e ele distraído espalhava o tédio no pão.

ela entrou na cozinha, os cabelos molhados e o cheiro do banho o fizeram voltar quando um beijo de creme dental estralou na bochecha. um sorriso. dele.

o café coado. as xícaras. os cheiros da manhã, os barulhos das gentes acordando na rua. a manhã entrava pelo dia de uma forma descuidada e ele se colocou a olhar para ela. olhava todos os seus detalhes. a nuca. os ombros. a curvatura das costas marcada na camiseta colada. os braços. os pelos brilhando no reflexo do sol.

ela lavava a louça e um pouco de cabelo foi para os olhos. “tira pra mim?!”. ele levantou-se tirou os cabelos com a ponta dos dedos, escorregou pelo lado do olho, contornou-lhe a boca, passou no pescoço. no caminho de um beijo simples e leve foi dizendo “interessante como você cabe perfeitamente em mim.”

ela fechou os olhos...

o sol ficou preguiçoso no quintal, as roupas bagunçando no varal, a louça pela metade na pia, o barulho das gentes nas ruas e a manhã entrando descuidada pelo dia.

para Henrique C.

29 outubro 2010

formas #2

eu te amo
como um vento zunindo na janela do prédio

te amo como
setembro e seus dias de ventos

te amo
como luzes da rua na madrugada

te amo como
frutas maduras descansando nas árvores

te amo
como meninas de saias justas andando na rua

te amo como
um sussurro em meio ao barulho

te amo
como atletas em olimpíadas

te amo como
lágrimas correndo no rosto

te amo
como lágrimas parando nos lábios

te amo como
o sol de janeiro

eu te amo
como formas geométricas perfeitas.

21 outubro 2010

formas

eu te amo
como um pôr do sol em dias nublados.

te amo como
o barulho dos carros no congestionamento.

te amo
como crianças correndo na escola.

te amo como
aviões levantando vôo.

te amo
como folhas de árvores nos outonos.

te amo como
os ventos do ártico.

te amo
como um banho frio em dias de calor.

te amo como
cabelos embaraçados.

te amo
como um show de rock & roll.

eu te amo
como se ama totalmente sem perceber.

eu te amo por amar.

te amo como
uma música lenta.

te amo
como um cobertor de retalhos.

te amo como
um batom vermelho em boca de mulher.

te amo
como se ama um recém nascido.

te amo como
se não soubesse o que é amor.

te amo
como se amasse pela primeira vez.

te amo como
se já tivesse amado mil vezes.

te amo
como o silêncio.
em silêncio.
no silêncio.
escutando as letras brotarem dos dedos, como se fosse amor.

23 agosto 2010

egoísmo

e depois de se comerem com uma voracidade peculiar ela se levantou e se pôs a vestir:


ele: - aonde você vai?
ela: - vou salvar o mundo.
ele: - posso ir junto?
ela: - não. a glória deve ser toda minha.


para os egoístas.